quinta-feira, 8 de junho de 2017

RESENHA: IMPERFEITOS

SINOPSE: Celestine North vive em uma sociedade que rejeita a imperfeição. Todos aqueles que praticam algum ato julgado como errado são marcados para sempre, rechaçados da comunidade, seres não merecedores de compaixão. Por isso, Celestine procura viver uma vida perfeita. Ela é um exemplo de filha e de irmã, é uma aluna excepcional, bem quista por todos do colégio, além do mais, ela namora Art Crevan, filho da autoridade máxima da cidade, o juiz Crevan. Em meio a essa vida perfeita, Celestine se encontra em uma situação incomum, que a faz tomar uma decisão instintiva. Ela faz uma escolha que pode mudar o futuro dela e das pessoas a seu redor. Ela pode ser presa? Ela pode ser marcada? Ela poderá se tornar, do dia para a noite Imperfeita? Nesta distopia deslumbrante, a autora best-seller Cecelia Ahern retrata uma sociedade em que a perfeição é primordial e quem cometer qualquer ato falho será punido. A história de uma jovem que decide tomar uma posição que poderá custar-lhe tudo.

Imperfeito: Que não é perfeito; que tem defeitos.
Fala galera! Hoje vamos falar sobre o livro novo livro de Cecelia Ahern, autora de best-sellers como P.S. Eu Te Amo e Simplesmente Acontece. A autora faz sua estreia no estilo Young Adult com essa distopia. A sociedade que se julga perfeita (qualquer semelhança não é mera coincidência) julga aqueles que cometem crimes morais, éticos e falhas de caráter (mentiras, desonestidade, etc), separando-os por marcações a ferro quente na pele, a pessoa que for considerada imperfeita é julgada e marcada com um “I”, de imperfeito, em alguma parte do corpo (na mão, na têmpora, na língua, no peito, depende do tipo de gravidade do seu ato).  Isso os impede de frequentar certos lugares, de comer certas comidas, de sair depois do horário determinado, entre outras coisas. Os Imperfeitos são discriminados e excluídos. Um tribunal foi criado para julgar as pessoas que cometem esses crimes. Uma pessoa julgada Imperfeita não é presa, mas passa viver à margem da sociedade, nunca poderá exercer um cargo de poder, nunca poderá ser ajudado por um Perfeito, nunca poderá se reunir com mais de um Imperfeito sem que um Perfeito esteja presente e terá que usar uma braçadeira vermelha, quase como uma segunda pele, para sempre. Ao contrário dos criminosos, o Imperfeito não recebe uma segunda chance, mesmo que se arrependa dos seus atos, ele permanece Imperfeito para o resto da vida.

O juiz desse tribunal, Crevan, é o sogro da jovem Celestine, que vive uma vida perfeita e é um exemplo para todos. Celestine é bem racional, adora seguir a lógica, ama matemática. Tudo parece ser muito claro para e o mundo é ótimo desse jeito, até que tudo muda. Ela namora com Art e juntos fazem planos e juras de amor. Mas, tudo muda quando ela se depara com uma cena chocante: um idoso imperfeito está morrendo e ninguém cede o lugar para ele no ônibus – visto que jamais alguém ajudaria um imperfeito. Qual seria atitude correta numa situação dessas? Continuar sendo “perfeita” e seguir as leis? Ou ajudar um imperfeito a não morrer e se tornar imperfeita? A sua decisão frente a essa situação levará a sua vida a um rumo que ela jamais imaginaria. E então o inevitável acaba acontecendo: ela é marcada a ferro por ser considerada uma Imperfeita. As pessoas podem receber até 5 marcações e o máximo que já aconteceu foram receber duas, mas Celestine receberá 6 marcações! Quer saber por quê? Então terá que ler para descobrir! Desde quando ter compaixão pelo próximo era algo errado de se sentir? Como era possível ser condenada por ter feito algo moralmente certo?

Assim como a maioria, Celestine cresceu aprendendo a repudiar os Imperfeitos e detestava estar no mesmo ambiente que eles. Defensora ferrenha do Governo e do Tribunal, ela idolatrava seu sogro e juiz. Porque quando tais regras são aplicadas a outras pessoas, muitas delas que nem conhecemos ou somos íntimas, não nos faz diferença alguma. Sabe aquele ditado: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”? Quando é um desconhecido marcado como imperfeito, não nos importamos. Mas e quadno um amigo nosso é marcado? Uma pessoa que por anos convivemos e que temos certeza de que nunca fez nada de errado? Ou pior, quando nós mesmos, que a vida inteira fizemos tudo correto, em um único deslize, somos taxados como escória, parece certo? Afinal, não somos criminosos, todos nós merecemos uma segunda chance. Esta é a magia da distopia, nos apresentar um mundo utópico, Perfeito, para percebermos que a Perfeição não só é impossível, como não é saudável. E foi desse modo que Cecelia inseriu um questionamento moral, ético e político, feito de forma magistral, no texto. Celestine estava certa de que o Tribunal agia para o bem da comunidade, até presenciar uma cena que fez com que as suas convicções fossem abaladas, fazendo-a questionar tudo no qual ela acreditava. Dúvidas começaram a invadir os pensamentos da menina, que deixou de ficar satisfeita com as respostas simplórias que lhes eram oferecidas, com um tom de alerta. Agora Celestine se tornou um deles e sua punição vai além do esperado: para os perfeitos, ela é um erro. Para os Imperfeitos, uma causa, um mártir. 

A narrativa é feita em primeira pessoa pela própria Celestine. A autora consegue manter um bom ritmo, construir uma história cheia de suspense e com personagens que conseguem prender e conquistar. Uma das coisas que mais gostei é que todos os personagens mudam com o correr do livro ou melhor, amadurecem, principalmente nossa protagonista. Foi notável o crescimento dela a cada página. Enquanto no início ela não acreditava no que estava acontecendo consigo e só queria se livrar de qualquer punição, passou a aceitar seu fardo com orgulho e lutar por vingança. Art, namorado da protagonista, teve atitudes compreensíveis, mas covardes. Celestine tem uma irmã, Juniper, antes sua sombra, introvertida, agora em destaque graças ao que Celestine se tornou. O relacionamento entre as duas teve dois grandes momentos dentro do livro e achei muito interessante como a autora trabalhou o ressentimento e o afastamento de cada uma delas. O pai é um personagem disposto a se levantar contra a injustiça pela filha e a mãe é mais contida, temerosa quanto ao que a aguarda caso levante a voz, mas no final também acaba apoiando e lutando por sua filha.

Um dos personagens que eu mais gostei, curiosamente, foi um dos que menos apareceu e falou no livro: Carrick. Ele se torna uma figura de apoio para a protagonista mesmo se tratando de um desconhecido. O fato de terem dividido um trauma e uma memória tão pesada quanto as marcações cria essa ligação entre os personagens e nós torcemos para que ele apareça por ela, porque sabe que Carrick é o único capaz de entender Celestine melhor do que ela mesma. Também ainda temos o avô revolucionário, a repórter que parece ser cruel, mas se mostra humana e sensibilizada com a história de Celestine. Crevan, o homem responsável pela condenação e punição da protagonista, é um dos vilões mais bem trabalhados que já li. Age de acordo com o que acredita ser o melhor, ainda que o melhor remeta a crueldades ao mesmo tempo em que tem muito de corruptível e de psicótico, perdendo a linha para provar seus pontos. Repleto de ação, com cenas fortes de violência, mostrando o que um Estado tirânico é capaz de fazer para preservar o poder e calar quem se rebela, Imperfeitos aborda uma discussão muito inteligente, sobre até que ponto temos o direito de errar, reconhecer os nossos erros e sermos perdoados por eles para seguirmos em frente mais sábios. Super recomendo a leitura!


VITAMINAS:

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