segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

RESENHA DO LEITOR: O CONTO DA AIA

SINOPSE: A história de 'O conto da aia' passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes - tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado - há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado. Era o caso de Offred. Por isso, sua filha lhe foi tomada e doada para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Com esta história, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente.


Margaret Atwood é escritora, poeta e crítica canadense. Publicou "O Conto da Aia" em 1985, um romance distópico que figurou na lista dos finalistas do Booker Prize, foi adaptado para o cinema e é obra de referência em cursos de literatura contemporânea em língua inglesa. E que livro! No mínimo perturbador. A narrativa é feita em primeira pessoa e envolve não apenas acontecimentos, mas os sentimentos e reflexões de "Offred", nossa protagonista. Offred não é seu nome real (o nome verdadeiro não nos é revelado), é uma espécie de patronímico ou título, composto da preposição "de", que indica "posse". No caso, Offred, significaria "de ou pertencente a Fred", seu dono. Nossa heroína é uma Aia, uma das classes ou castas existentes em Gilead, local onde acontece toda a trama. Gilead, ao que tudo indica surge como conseqüência de um golpe de estado que toma o governo dos Estados Unidos e instala uma ditadura religiosa, que usa a Bíblia para justificar seus atos.


A sociedade de Gilead é dividida em classes: Há as esposas, as econoesposas, as marthas, as tias, os anjos, os guardiões, as aias, entre outros. Cada classe tem uma função específica e restrita. As Aias, categoria a qual pertence nossa protagonista são "reprodutoras". Mulheres cuja única função é procriar. Mulheres sem voz, direitos ou qualquer tipo de expressão. Mulheres que são submetidas a constantes estupros, realizados através de rituais, nos quais as esposas dos estupradores participam ativamente, já que são elas as "mães oficiais" dos bebês gerados. Tais rituais são a forma encontrada pelos líderes de Gilead para combater a infertilidade humana, cujas causas são desconhecidas. Algumas teorias atribuem as baixas taxas de natalidade ao lixo tóxico, às doenças sexualmente transmissíveis, entre outras suposições.


Offred, em sua narrativa, nos conta sobre sua rotina diária, afazeres, a forma como é tratada, e nesse ponto é interessante observar que há uma certa contradição no tratamento ao qual as Aias são submetidas. Lhes é oferecido quarto, comida, um certo respeito por parte dos outros homens, aos quais são intocáveis, mas ao mesmo tempo são odiadas e humilhadas pelas esposas e todas as outras classes de mulheres. Uma vida de completo isolamento, voltada unicamente à sua obrigação: Procriar. Não têm direito a televisão, livros, revistas, não lhes é permitido conversar com quem quer que seja. Seu único contato com o mundo exterior são as compras para a casa, que realizam diariamente em duplas, mas sem permissão para conversarem umas com as outras. Offred pertence a primeira geração de Aias. Estas passam por uma escola que as disciplina e orienta sobre como devem se comportar em sua nova "função".


A autora descreve de forma detalhada as ruas e casas de Gilead, comparando-as as casas de revistas de decoração. Ruas muito limpas, silenciosas e em perfeita ordem. "Existe mais de um tipo de liberdade, dizia tia Lydia. Liberdade ‘para’: a faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, e liberdade ‘de’: que significa estar livre de alguma coisa. Nos tempos da anarquia, era "liberdade para". Agora a vocês está sendo concedida a ‘liberdade de’. Não a subestimem". Offred, narra os acontecimentos do presente, mas ao mesmo tempo relembra fatos ocorridos no passado, lembranças sobre como era sua vida, com marido e filha, emprego, e sobre como viviam as mulheres, de modo geral. A impressão que se tem é de que o regime religioso e cultural de Gilead não é global, já que em alguns trechos encontramos "turistas" fotografando e indagando as Aias sobre suas vidas e se são felizes vivendo dessa forma. Estas são instruídas a sempre dizerem "sim" e o mais curioso é observar que muitas delas realmente acreditam e aceitam o modo de vida ao qual são submetidas.


"Quando pensamos no passado são as coisas bonitas que escolhemos sempre. Queremos acreditar que tudo era assim."

Ao longo da trama acompanhamos as atitudes de Offred, suas amizades clandestinas, suas aspirações e insatisfação, relacionamentos secretos e proibidos, enfim, uma teia de acontecimentos que culmina com um final inusitado. Aliás, esta é outra curiosidade. O livro "não acaba quando termina". Há um epílogo que deixa a história ainda mais fantástica. Qualquer coisa que eu disser sobre o final soará como spoiler, então deixo-os a vontade para ler e se deliciar com esta obra que causa tantos sentimentos controversos no leitor: Indignação, compaixão, claustrofobia, curiosidade, tensão e horror. Um livro que nos remete ao mundo em que vivemos; que nos faz refletir sobre quão frágil é nossa sociedade e nossas convicções; que nos lembra por quantos retrocessos passamos nos últimos anos; que nos faz ver o crescente fanatismo religioso e o terrorismo que ameaça nossa humanidade. Um livro para nos resguardar e deixar alertas!


VITAMINAS:


RESENHA ESCRITA POR: SIMONE TORRES
40. Pedagoga e Teóloga. Leitora compulsiva, cinéfila e amante dos animais. Fazer arte é o que mais amo depois de ler.

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