sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

RESENHA DO LEITOR: A MORENINHA

SINOPSE: O romance A Moreninha é um marco do início dos romances românticos no Brasil. Conta a história de um grupo de estudantes de Medicina que vai passar a um fim de semana numa ilha. Um deles, Augusto, se diz capaz de resistir a um relacionamento amoroso, e acaba fazendo uma aposta com Felipe, nesta fica estipulado que se Augusto amasse alguém por mais de quinze dias teria de escrever um romance e confessar seu amor. Na ilha, Augusto passa a se envolver com Carolina, a moreninha, irmã de Felipe, que por coincidência é a mesma garota a quem ele fez um juramento de eterna felicidade aos treze anos.


Impressões Pessoais: Olá, caros leitores! Como já sabem eu sou apaixonado pela literatura clássica brasileira, e dessa vez decidir resenhar esse livro de Manuel de Macedo publicado em 1844. Essa obra marca o início do romantismo brasileiro, assim ele é considerado o primeiro romance tipicamente brasileiro, por ter retratado de hábitos de jovens burgueses cariocas. Essa obra fez tanto sucesso que levou Joaquim Manuel de Macedo, que estava no seu primeiro ano acadêmico no curso de Medicina, a desistir da sua vida universitária e a dedicar-se exclusivamente à literatura e ao jornalismo. Vale ressaltar que esse clássico teve duas adaptações para o cinema e duas para a teledramaturgia. Entre 1975 e 1976, ela foi uma telenovela homônima produzida pela Rede Globo, com 79 capítulos, sendo a segunda novela das seis horas produzida em cores.


É interessante que enquanto folhetim A Moreninha foi escrita por Macedo pensando no gosto do leitor, procurando oferecer-lhe aquilo que ele quer ler. Pelo enredo da obra você consegue sentir a leveza nos assuntos abordados e até prever o final, porque o autor não tem a preocupação de promover questionamentos, reflexões filosóficas ou sociais. Mas por meio desse clássico, com personagens e amarrações bem construídas características dos folhetins, posso afirmar que A Moreninha é um romance que visa entreter o leitor, diverti-lo e fazê-lo sonhar, pois o tipo de narrativa e os hábitos dos personagens se aproximam da realidade do leitor. A linguagem dele é simples, próxima do coloquial, o que torna a narração e os diálogos, acessíveis ao público cheios de leveza e vivacidade, adequando-se com perfeição ao tipo de romance que agrada ao público.


Achei bem interessante que o eu-lírico se utiliza de uma técnica conhecida como sinestesia, pois consegue passar ao leitor as feições e sensações quase sensitivas com seu detalhamento, seja dentro da fala dos personagens ou das descrições do ambiente. E por ser um romance urbano o clímax e o desfecho segue os padrões de uma novela de folhetim, no qual ocorre as grandes revelações são esperadas pelo leitor. Nessa obra, temos um narrador próximo de seu leitor, que conduz a todos os pontos que nos é conveniente que saibamos e acompanha de perto todas as cenas, como se estivesse lá ‘’espionando’’. Por isso, o leitor vai encontrar expressões, como ‘’vamos ouvi-los’’, ditas pelo narrador onisciente. O narrador em terceira pessoa, irá se intrometer um pouco na história, bancando o moralista. A importância disso para a obra e a repercussão no leitor é que a utilização deste tipo de narrador causa o aprofundamento psicológico das personagens, o que não ocorreria se o narrador fosse em primeira pessoa.


Um dos pontos mais interessantes dessa história é que há uma ruptura com a figura feminina que prevalecia no século XIX. Moreninha era uma heroína livre, que não queria em momento algum se sentir presa, indo em direção contrária às moças da sua época que buscavam encontrar rapidamente um marido e constituir uma família.  Além disso, há uma crítica social ao casamento, pois, na época, era um ajuste matrimonial, feito pelos pais dos jovens. A união dos filhos ganhava uma conotação de negócio indissolúvel, tratada apenas com a seriedade dos adultos. Outro tema da obra é a fidelidade ao amor da infância, tanto que o enredo traz muitas voltas ao passado que é tipicamente uma característica romântica. Assim essa história tem aspectos interessantes que prendem o leitor como namoros difíceis de começar, paixões impossíveis, personagens misteriosos cuja identidade só se revela no final do romance, conflitos morais entre o dever e a paixão, além de situações equívocas e cômicas. Essa fórmula descoberta pelo Macedo até hoje se encontram em livros de romances românticos, filmes e na teledramaturgia, por isso que há críticos que dizem que Joaquim de Macedo descobriu a receita dos romances que agradam ao público brasileiro. Assim eu recomendo esse livro pelo enredo bem articulado, pelo registro do ambiente carioca e pela sutil harmonização entre amor juvenil e preceitos conservadores, ultrapassando assim a dimensão de uma simples cópia de folhetim europeu.


VITAMINAS:


RESENHA ESCRITA POR: Felipe Maranhão
22 anos. Graduando do 6° período de Letras, da Universidade Federal do Tocantins. Pesquisador em Iniciação Científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, com ênfase em bilinguismo Krahô. E amante da literatura universal.

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